RIO DE
JANEIRO
Meu retorno para casa não foi tranquilo. Rodrigo ficou
possesso quando ouviu minha história por inteiro e tomou
conhecimento de meu pequeno progresso. Acusou-me de covardia e
incompetência, jogou na minha cara o dinheiro gasto com a
reforma da cela, com minhas passagens, hospedagem, táxis e
alimentação. Disse que tinha apostado em mim, que eu o
decepcionara, porque não tinha ao menos conseguido um bom
material para o próximo livro. A esta acusação
tentei rebater dizendo ter material suficiente para deixar que minha
criatividade fizesse o resto. Rodrigo riu com escárnio e
confessou ter me mandado naquela missão justamente por não
acreditar na minha capacidade criativa.
_Eu quis ajudar você e só tive prejuízos. - ele
suspirou - Talvez tenha sido um erro mandá-la até
aquele assassino. A verdade Dora, é que estou encerrando a
publicação dos livros de bolso. Eu esperava que você
conseguisse uma boa história, suficientemente boa para entrar
no novo catálogo que estamos lançando. - ele sacudiu a
cabeça e tirou de dentro da gaveta de sua mesa um formulário
- Gosto de você. Somos amigos há muitos anos, mas não
posso por esse motivo sustentar a publicação dos livros
de bolso. Eles não me dão um bom retorno e quero
começar a investir no mercado de literatura de verdade, com
livros de boa qualidade. Infelizmente você não se
enquadra neste novo padrão... Esperava que conseguisse isso
com essa história do Dr. Macabro, mas eu me enganei. O que
você conseguiu foi delinear o perfil de um assassino, que
comete crimes sem objetivo algum além de comer os pedaços
das vítimas. Não há enredo aqui, não há
mistério, não há horror, não há
nada além de um maluco canibal, coisa que o cinema e a
literatura já exploraram à exaustão. Esperava
que viesse com um roteiro completo e que pudéssemos trabalhar
sobre ele até termos um livro de alto padrão, para
inaugurar o novo catálogo da editora. Você assinaria a
autoria desse trabalho com seu nome verdadeiro, como era sua vontade
e faríamos um grande lançamento na Livraria da Urca...
estas poucas linhas não nos darão isso Dora, sinto
muito, mas você esta demitida.
Demorei um minuto para perceber o que ele estava dizendo. Não
preciso esmiuçar detalhes sobre meu desapontamento, basta
dizer que aquela foi a pior noticia da minha vida. Tentei barganhar,
disse que escreveria a história, que faria uma grande novela
policial com o material que eu tinha. Ele só sacudia a cabeça
e repetia as mesmas perguntas de antes: “Qual o enredo? Qual a
trama?”. Ignorei as perguntas sem resposta e continuei meus apelos,
prometi até voltar ao hospital e continuar a entrevista, mas
ele continuou inflexível:
_Não vou mais gastar nenhum centavo com essa história.
Ademais o Macabro não quer mais falar com você.
_Isso foi anteontem! Hoje ele pode estar pensando diferente...
Rodrigo sacudiu a cabeça. _Sinto muito. Peça para
minha secretária orientar você no preenchimento deste
formulário de rescisão contratual. Ela vai explicar
seus direitos ao fundo de garantia, aos acertos de contas...
_Eu vou escrever a história! - protestei sentindo lágrimas
minando- Você verá!
_Só posso lhe desejar boa sorte. Quando terminar, mande uma
cópia, quem sabe o conselho desta editora não a
aprova. Até lá, espero que compreenda que não é
nada pessoal. São apenas negócios.
"Nada pessoal só negócios!" Já tinha
lido essa expressão antes, no livro "O Chefão"
de Mário Puzo. Era a frase que o Dom Corleone dizia quando
decidia matar alguém...
Em casa amarguei a demissão tomando um porre enquanto me
despedia daquele ambiente, pois sem os rendimentos da editora, eu não
seria capaz de continuar pagando aquele aluguel na vila de Santa
Tereza e seria obrigada a sair da baixada fluminense para ir viver em
algum bairro pobre da periferia do Rio.
Era tarde da noite quando meu telefone tocou e eu já estava
completamente bêbada. Do outro lado da linha era Rodrigo. Por
um instante pensei que ele talvez estivesse arrependido e me quisesse
de volta na editora, mas a voz dele soou meio desesperada e precisei
de um momento para concatenar as idéias.
_Você tem um lugar onde possa ir se esconder por uns tempos?-
ele perguntou e achei graça na questão.
_Por enquanto ainda tenho minha casa, mas graças à
você, logo não a terei mais... - eu tinha consciência
de quanto minha voz estava pastosa.
_Não estou falando da sua casa... você está
bêbada?
_ O que você acha? - perguntei enraivecida.
_ Preste atenção! Você precisa sair daí,
precisa ir se esconder em algum lugar, porque me ligaram do hospital,
o Macabro fugiu no fim desta tarde. Se ele estiver vindo para o Rio
atrás de você, já deve estar chegando. Você
entendeu?
_Eu quero que você e esse Macabro vão à merda!-
grunhi.
_Dora, isso não é uma brincadeira, sei que está
com raiva de mim... eu não imaginava que a coisa com o Dr.
Macabro fosse assim tão grave...
_Ele disse que você iria me demitir, ele deduziu isso e tinha
razão! Vou escrever para a Comissão e ajudá-lo...
_Dora você não pode ajudá-lo, ele fugiu! Olha...
eu prometo que vou rever sua situação na editora, a
gente pode dar um jeito nisso, mas agora você deve prestar
atenção no que estou dizendo. Está ouvindo?
_Aham...
_O Dr. Daniel Malbenito fugiu do presídio esta tarde e o Dr.
Emerson acredita que ele virá atrás de você. Você
deve ir se esconder na casa de algum amigo até que a polícia
possa capturá-lo, ou ajudá-la. Você entendeu?
Não me lembro exatamente de como a conversa terminou, eu
estava muito embriagada, mas acho que concordei em passar o resto das
minhas férias na casa de um casal de amigos em Juiz de Fora,
porque foi a primeira ideia que me ocorreu quando acordei pela manhã.
Como Daniel havia fugido? Rodrigo dissera qualquer coisa sobre ele
ter se fingido de morto, matado os guardas e roubado um carro, mas os
detalhes da conversa me escapavam. A cabeça estourava de dor,
a ressaca de vodka sempre me abateu. Vomitei, mas não sei
dizer se pelo efeito da bebedeira, ou se pelo medo de vir a ser a
próxima vítima daquele canibal.
Pensei com mais calma a respeito: Daniel não sabia meu
verdadeiro nome, nem onde eu morava, se estivesse querendo me
encontrar era mais provável que fosse buscar informações
na editora. Liguei para Rodrigo e lhe disse isso. Ele por sua vez
insistiu para que eu fugisse de casa por uns tempos.
_Por aqui temos seguranças, eu me viro, mas prometa que vai
fazer isso, que vai fugir por uns tempos.
_Já estou fazendo as malas.- menti.
Depois de desligar o telefone, decidi antes de mais nada ir até
a farmácia comprar algum remédio para dor de cabeça
e fígado. Havia uma não muito longe de casa e achei
melhor ir até ela a pé, para evitar o trânsito
maluco daquela hora do dia. Eram onze e meia da manhã.
Quando saí não notei a Van escura parada do outro lado
da rua.
Desci a ladeira até a farmácia há uns dois
quarteirões de distância, pensando em como iria fugir
por uns tempos e deixar a casa fechada, pagando aluguel, com o pouco
dinheiro que me sobrara? Lembrei que Rodrigo tinha dito qualquer
coisa a respeito de rever minha situação na editora,
mas não acreditei que ele estivesse falando sério, do
contrário teria me chamado para conversar agora que eu estava
sóbria... Comprei os remédios e voltei, a cabeça
estourando de dor enquanto eu subia a ladeira sob o Sol do meio dia;
os pensamentos presos num círculo vicioso... Assim que girei a
chave da porta, fui agarrada por mãos fortes e sobre meu rosto
foi pressionado um lenço embebido em clorofórmio. A
ultima coisa que me lembro de ter visto, antes de perder os sentidos,
foi a Van do outro lado da rua.
DÉCIMA PARTE
DÉCIMA PARTE
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